A cada final de ano, dirijo-me aos búzios como parte de um ritual de gratidão, respeito, conexão com o Sagrado, amor e fé, com o desejo de compartilhar uma mensagem de esperança e iluminar nossos caminhos e nossas escolhas com as recomendações e perspectivas que os Orixás nos apresentam, com sua sabedoria e generosidade sem fim.
A cada novo ciclo, uma nova oportunidade, um novo Odú, que marca o encerramento de alguns processos e o início de outros tempos, com novas ideias e possibilidades. Assim, ritualizamos nossos recomeços em nossa travessia em Aiyê, que significa este plano terreno em que vivemos, renovando nosso Axé, entendido como nossa potência e força vital, e cuidando de nosso Orí para que possamos fazer escolhas conscientes, saudáveis e gentis, conosco e com todos os seres que dividem esta existência conosco.
O Odú Òfún se apresenta para o ano de 2026, representando sabedoria, ancestralidade, longevidade e renovação. Este Odú está associado à figura de Oxalufã ou Òṣàlúfọ́n em iorubá, representando a forma mais velha e sábia de Oxalá, Orixá da criação e da tranquilidade. Oxalá é o ar que inspiramos e expiramos de forma pausada para nos lembrar de agradecer por nossa existência, trazendo paz interior.
O Odú do novo ano também se relaciona com a a necessidade de desapego e superação de velhos hábitos para alcançar novas possibilidades, com sabedoria. Com alegria e muita gratidão, reverencio este Odú que nos indica justamente o nascimento de uma nova fase na vida. Este Odú nos recomenda que aprendamos a deixar ir tudo aquilo que já não nos serve mais para que o novo possa florescer e ocupar lugar em nossas vidas. Para tanto, é preciso aprender também a persistir, com fé, serenidade e muita paciência.
O Odú Òfún simboliza a criação do universo e a espiritualidade. Ele remete à intuição, à evolução da alma e à sabedoria. Quando o Odú Òfún aparece, aponta para uma virada de chave, sugerindo que as pessoas devam buscar seus próprios caminhos e objetivos. O Odú orienta a não ficarmos parados, pois devemos agir diretamente para o planejamento, o cultivo e a consecução de nossos novos projetos de vida. É um Odú de mudanças, buscas, crescimento pessoal e profissional.
O Odú Òfún nos impulsiona a abraçar o novo com ousadia, confiança e sabedoria a fim de completarmos uma fase importante em nossas vidas. Anuncia-se um tempo de brilho e luz. Brilho e luz solar que indica e favorece o sucesso, mas que também pode impedir a percepção clara para quem vive em cavernas, apegado aos próprios posicionamentos ou a crenças limitantes, não se comunicando com outras pessoas, tampouco se arriscando em novos caminhos.
Este Odú também nos aconselha a processar, diluir e abandonar mágoas, rancores e ódios para abrir caminhos para a sorte, a prosperidade e as transformações positivas. Somente dessa forma, poderemos tornar o solo fértil e receptivo para o novo, abrindo o nosso espaço interno para as boas mudanças. O ano de 2026 será favorável para o trabalho, para os estudos, para a intelectualidade e para os relacionamentos, com uma atmosfera de criatividade e abundância.
Òṣàlúfọ́n rege o novo ano e mantém ao seu lado Iemanjá.
Iemanjá é a mãe cujos filhos são peixes (Yèyé omo ejá, em iorubá), a grande mãe reconhecida pelo povo brasileiro como a mãe de quase todos os Orixás. Também conhecida como Íyá Orí, a Senhora da Cabeça, que concede o equilíbrio mental às pessoas. Ela vem para nos proporcionar o equilíbrio necessário para enfrentar as mudanças e os desafios do próximo ano. Ela também traz o conselho de cuidarmos, com carinho e responsabilidade, da nossa saúde mental e emocional. Ela atuará ao lado de Oxalufã, em profunda harmonia, em um
ano que favorece a gestação e a multiplicação de tudo o que for bom, não somente de filhos para quem os deseja, mas, principalmente, de novos sonhos, novos projetos, novas ideias, novos planos, novas realizações, novas carreiras, novas etapas, novos relacionamentos e boas atitudes. Será um ano auspicioso para que possamos nos reinventar!
Oxóssi também traz proteção para o novo ano, nos apoiando em nossas buscas pessoais, como a por (auto)conhecimento, e em nossos novos empreendimentos, nos ensinando a caçar, a repartir o alimento com a nossa comunidade para multiplicar a prosperidade.
Ano das águas de nosso Pai Oxalá e da nossa Mãe Iemanjá. Águas que refrescam e concedem serenidade ao nosso Orí. Águas que nos permitem perceber a realidade que nos cerca, com suas novas possibilidades, com clareza e sabedoria. Águas de fertilidade e abundância. Águas que nutrem novos plantios e permitem o florescimento da vida.
Um ano em que as mulheres deverão ser protegidas e defendidas de toda a violência e em que o poder do feminino deverá ser respeitado e reverenciado para que a vida possa fluir em abundância. Um ano de dualidades agindo em harmonia, em que as dimensões do masculino e do feminino precisam se articular e atuar de forma integrada para garantir que a vida possa ser vivida em sua plenitude. Um ano de geração da vida, em que o feminino exerce um papel de destaque para criar novas realidades, recomeços e futuros possíveis para a humanidade e todos os seres que habitam a Terra.
Oxalá representa o começo e o fim, que se transmuta em recomeço, em um ciclo infinito de criação e recriação. Que nos inspiremos com o Odú Òfún e com a sabedoria de Oxalufã e Iemanjá para inaugurar um novo ciclo, rompendo com o que está estagnado, nos aprisiona e se mostra estéril em nossas vidas! Que 2026 seja o início de um novo Tempo, com águas de sabedoria, fertilidade, criatividade, saúde mental e serenidade!
Por Mãe Márcia d’Oxum (24/12/2025)


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